Sobre limites, família e escola


Por: Penha Tótola 

Pensar a questão do limite é de extrema importância no processo de educação e formação do indivíduo. O ‘não’, entendido como uma forma de “frear” determinados desejos, impulsos ou vontades desse ser em construção que é a criança, é fundamental para seu desenvolvimento saudável.

A criança precisa, para seu próprio bem – e para o seu crescimento psíquico e social – saber que não pode tudo. Porque ninguém pode tudo.

Neste processo, a escola é uma grande aliada, mas a base é a família. Os pais/responsáveis devem se apropriar da autoridade que têm e, ao contrário do que se pensa, exercê-la dentro de um contexto que também inclui diálogo, afeto e parceria. Uma coisa não exclui a outra.

A escola, por sua vez, “entra” na relação familiar como parceira a partir do momento que, por sua própria natureza e configuração, leva o aluno a perceber, desde a educação infantil, que o mundo é mais amplo do que  seu universo familiar. Entrar na escola já funciona como um “exercício prático” sobre socialização, respeito às diferenças, relacionamento, convivência em grupo.

Neste sentido e aí também abragendo a questão do “limite”, a escola pode estender sua atuação e contribuir de fato com a família na formação deste indivíduo, encontrando neste lugar da educação formal espaços vários para desenvolver propostas que trabalhem valores humanos e o respeito ao outro.

Criatividade, disponibilidade e consciência do seu papel social são atributos dessa escola que olha alunos e famílias para além de estatísticas, rankings e números.

A realização de projetos interdisciplinares e a criação de espaços de interação com familiares e com os próprios alunos são alguns exemplos que surtem bons resultados. Algumas dessas práticas, adotadas na escola, também podem ser adaptadas ao cotidiano da família, numa relação de parceria e troca que só traz benefícios. É, por exemplo, importante que, em casa tanto como na escola, as regras de comportamento, de conduta e mesmo referentes à rotina sejam conversadas e estejam claras.

Na escola, estabelece-se, muitas vezes, “combinados”, principalmente com as crianças mais novas. Os combinados nada mais são do que regras de comportamento em sala de aula, no ambiente da escola e na convivência com colegas e professores. A diferença é que o aluno participa da elaboração desses combinados.

Ele é protagonista até mesmo ajudando a escrever e desenhar um cartaz que fica em sala de aula com os tais “combinados”. Essa construção coletiva também pode acontecer em casa, mesmo que em outro formato.

 Penha Tótola é pedagoga e diretora da Escola Monteiro

A participação leva a criança a se sentir respeitada e, ao ser respeitada, ela tende a respeitar mais e a cumprir as regras. A autoridade é dos pais/responsáveis, mas permitir o diálogo e a participação não os destitui de sua autoridade.

Dar limites é criar seres humanos melhores no sentido dos valores. É pensar em construir um mundo com pessoas que olhem além das próprias demandas, que pensem no outro, que enxerguem a coletividade que somos… E é também prepará-los melhor para a vida. Uma criança sem limites, que acha que pode tudo ou que manda em tudo, tem grande chance de se tornar um adulto sem condições de lidar com as adversidades e dificuldades que, inevitavelmente, farão parte de sua vida familiar, profissional ou social. O que não será bom nem para ela mesma e nem para a sociedade.