Quem luta não briga


Desde 2018, a Escola Monteiro foi introduzindo a luta nas aulas de Educação Física. A partir do terceiro trimestre deste ano, alunos do 3º ano do Fundamental I ao 9º ano do Fundamental II já podem usufruir, com maior frequência, da oportunidade de trabalhar a consciência corporal por meio dessa prática esportiva. Além do aprimoramento da consciência corporal, os estudantes se deparam com uma interessante proposta de aprendizado: desassociar luta de violência e entender que “quem luta não briga”.

Ficando apenas atrás do atletismo, a luta é considerada a modalidade esportiva mais antiga na história da humanidade. Registros que mostram lutadores encontrados em cavernas são datados desde 3000 a.C. Caracterizada pelo combate que inclui uso de técnicas, a prática se divide em diversos estilos que vão além do wrestling/grappling (combate corpo-a-corpo), como a esgrima, por exemplo, que não envolve contato direto entre os corpos dos adversários. 


Cumprimento antes de iniciarem o “derruba-toco”. Foto: Talita Vieira/Divulgação

Sob o viés da metodologia da Abordagem Crítico Superadora –uma perspectiva de ensino da Educação Física –, a luta é um esporte que trabalha diversos aspectos da qualidade do movimento do aluno, como força, agilidade e equilíbrio. Com incorporação instituída pelo Ministério da Educação na grade da Educação Física nas escolas, a Abordagem Crítico Superadora visa à formação crítica do aluno sobre sua cultura corporal (incluindo o contexto sociocultural e histórico) bem como seu desenvolvimento sociocognitivo, estimulando, desta forma, o senso de coletividade nos estudantes.

De acordo com o professor Alex Fabiano, a luta possui grande importância pedagógica no processo de formação humanizada dos alunos, pois uma nova concepção de luta é apresentada aos estudantes por meio dessas atividades com oposição: ela é diferente de brigar. Segundo a professora Janine Cavadas, as crianças são acostumadas a associar agressividade e violência à luta. Na Monteiro, elas se deparam com a tarefa de desconstruir, com auxílio dos professores, esse conceito. “Os alunos chegam com a visão de que lutar é machucar o outro, de briga, que não tem hora para acabar e nem para começar. Na luta, há hora para começar e para acabar, a gente se cumprimenta, respeita o outro, temos regras a cumprir”, esclarece Janine. A professora ainda ressalta que “Na luta, além de se ter um objetivo a atingir, o aluno precisa tomar conta do seu próprio corpo para não machucar o corpo do outro”. 

Alunos do 4º Ano praticando o cabo de guerra na Educação Física. Foto: Talita Vieira/Divulgação

A consciência corporal influenciada pela prática da luta gera, no aluno, uma responsabilidade social e coletiva – objetivo imprescindível a ser alcançado no ensino-aprendizagem humanizado. A professora reforça a importância da estruturação do ensino acerca das lutas, que precisam ser bem contextualizadas culturalmente aos praticantes, a fim de que o ensino permita a descoberta e afirmação identitária dos próprios alunos e da percepção e respeito à identidade do outro e de normas e valores de outras sociedades.

Janine defende que “A partir do momento em que o aluno se conscientiza dos movimentos de que é capaz, de sua força, agilidade e de como ele consegue desequilibrar ou desestabilizar o oponente, ele acaba se conhecendo melhor. Ao se conhecerem melhor, os alunos são mais agentes e coautores da sociedade em que vivem, tornando-se produtores de cultura. Este autoconhecimento e responsabilidade social tornam efetiva a participação dos estudantes no processo de manutenção da cultura na sociedade”. 

Na Educação Física da Monteiro, cada segmento participa de aulas de luta direcionadas de acordo com a complexidade que elas exigem. Os alunos trabalham desde os movimentos básicos até algumas lutas específicas, com o foco na qualidade do movimento. Além do controle motor, as lutas e práticas esportivas, em geral, também influenciam na concentração, cognição e emoções, possibilitando aos praticantes uma vida mais harmoniosa individual e socialmente.

A proposta da Escola é iniciar as aulas de luta para o Ensino Médio, a partir de 2020, com ministração do professor Alex Fabiano.

Talita Vieira.