Coringa – um retrato da loucura social


Lançado em 2019, Coringa é um filme estadunidense dirigido por Todd Phillips e Scott Silver. Estrelado por Joaquin Phoenix, o longa-metragem é baseado no icônico personagem da DC Comics, o arqui-inimigo do Batman. A narrativa, que é ambientada na cidade fictícia de Gotham, cuja estética lembra a década de 60, conta a história de vida do personagem Arthur Fleck até sua transformação no Coringa.

Coringa (2019). 
Foto: Reprodução/Warner Bros. Entertainment

Na primeira metade do filme, a vida de Arthur é retratada a fim de contextualizar o espectador acerca do personagem. O protagonista é mostrado como alguém que leva uma vida maçante. Assim como qualquer cidadão de Gotham, Arthur vive em um cenário de crise política e de descaso do poder público para com a população.

O personagem tem de enfrentar o desprezo alheio, inúmeras agressões – físicas, inclusive – e o consequente isolamento social. A constante sensação de ameaça à sua integridade física e emocional é ocasionada por um problema neurológico que Arthur possui: o afeto pseudobulbar. Sem explicitar qual é a doença que provoca crises descontroladas de riso em momentos impróprios em Arthur, o filme mostra que o protagonista, em meio a suas prováveis outras doenças mentais, leva uma vida aparentemente normal. Quem não enfrenta problemas? Quem não se sente triste e desamparado? Arthur Fleck, doente mental, parece alguém extremamente diferente ou comum? Será que todos estamos enfermos, de alguma forma?

Como uma espécie de mártir, Arthur é retratado pelo longa e tratado pela própria mãe – com quem mora – como um coitado. Uma pessoa sofrida, complacente e permissiva, cuja dor sensibiliza o público, levado a sentir identificação pessoal com ele. A mãe de Arthur, visivelmente acometida de alguma doença por precisar de cuidados do filho, impõe a ele a sensação de felicidade: “Minha mãe sempre diz para sorrir e fazer uma cara alegre. Ela disse que eu tenho um propósito: trazer risos e alegria ao mundo”, diz Arthur.   

O personagem, até então, obcecado por cumprir o seu propósito de vida, tem seu primeiro momento de expressão genuína. Após ser demitido, na volta para casa, Arthur é ridicularizado por três homens em um metrô, que o fazem se sentir ameaçado e desencadeiam uma crise de riso. Arthur, que havia ganhado uma arma de um colega de trabalho (para se defender de possíveis agressões), mata-os. Os assassinatos acarretam um movimento popular contra a elite da cidade de Gotham, da qual Thomas Wayne disputa o cargo de prefeito.

Após cometer os crimes, Arthur aparenta se sentir mais confiante e, sem remorso algum, inicia um processo de liberação do ódio que vinha contendo durante toda a sua vida. Não só em relação a todos que já lhe fizeram mal, mas a uma sociedade doente e desumana – Arthur é um arquétipo social, assim como Thomas Wayne. A partir da reação espontânea às agressões, ele percebeu que não tinha nada a perder: “Eu nunca fui feliz em um único dia da minha vida desgraçada”, diz o personagem. As noções de feliz e triste, de certo e errado entram em colapso. Os valores que sua mãe, provavelmente, ensinou-lhe estavam realmente certos? 

Coringa no programa de Murray Franklin. Foto: Reprodução/Warner Bros. Entertainment

Na parte final da trama, em uma conversa com Murray Franklin, apresentador de TV, o Coringa faz uma crítica social acerca dos poderosos da sociedade: “Eles acham que nós vamos ficar quietos e agir como bons meninos, que não se revoltam e não enlouquecem!”. E ainda acrescenta: “O que você ganha quando cruza um doente mental solitário com uma sociedade que o abandona e o trata como lixo? Você ganha o que merece!”.

Os questionamentos gerados ao final do longa são inúmeros, como por exemplo: o processo de transformação de Arthur em Coringa expõe a degradação de um ser humano ou mostra sua libertação das amarras sociais (ele encontrou a si mesmo em sua crueldade e loucura)? Quem dita nossos valores e nos ensina o que é certo e errado? Ao reprimirmos nossas emoções e manifestá-las de forma oposta ao que sentimos, estamos violentando a nós mesmos? Pessoas com doenças mentais são mais propensas a cometer crimes do que pessoas saudáveis?

Entretanto, Coringa deve ser assistido cuidadosamente. A identificação do público com o protagonista auxilia na reprodução de um discurso que legitima e glamouriza a violência. Os atos criminosos do Coringa são vistos com certa naturalidade pelo espectador – que, por meio do apelo emocional realizado pelo filme, acaba apoiando a violência como resposta à exclusão social. Dessa maneira, o filme também questiona sobre o que nos leva a consentir, inconscientemente, com atos de violência cometidos diante de nós. Assim, faz uma denúncia implícita: a falta (e urgência) de administração emocional por parte não só do Coringa, mas de cada indivíduo.

A violência praticada pelo personagem não é justificável. O sofrimento e a injustiça sentidos por Arthur Fleck não validam as respostas que o Coringa dá à sociedade. Seus atos impulsionados por uma mente traumatizada apontam, sim, para pessoas como eu e você, que também temos pensamentos e sentimentos negativos. Contudo, partindo da necessidade de gerenciar as próprias emoções, podemos, também, nos perguntar: qual sociedade exige do ser humano que ele esteja sempre feliz, senão uma louca? 

O filme nos mostra, através da simpatia – empatia – gerada pelo Coringa, que todos somos semelhantes. Humaniza o vilão dos quadrinhos e traz a reflexão a respeito dos marginalizados pela sociedade: os pobres, os doentes mentais, os criminosos. Faz repensar nossos valores e colocar nossa bondade e benevolência em xeque, afinal, somos genuinamente bons ou apenas nos reprimimos e cumprimos papéis sociais que nos foram impostos? Nos faz questionar, sob um outro viés, o poder público.

Ainda na conversa com Murray, Coringa desabafa: “Todo mundo é horrível hoje em dia. É o bastante para enlouquecer alguém. (…) Você já viu como é lá fora, Murray? Por acaso, você sai do estúdio? As pessoas só gritam e xingam umas às outras. Ninguém mais é educado! Ninguém pensa em como é estar no lugar do outro. Você acha que os homens como Thomas Wayne sabem como é ser como eu ou alguém diferente deles? Não sabem”. 

O filme, com 11 indicações ao Oscar 2020, é o retrato de uma sociedade na qual se responde violência com violência e onde os poderosos, sempre omissos de sua responsabilidade social e pessoal (diante de seus desequilíbrios internos e dilemas morais) compõem um cenário social insano – isso te lembra algo?

Coringa sai da esfera maniqueísta. O filme faz o retrato cru da loucura de um homem representando, assim, a loucura de uma sociedade semelhantemente doente.


Arthur Fleck no Asilo de Arkham, clínica psiquiátrica da cidade de Gotham. Foto: Reprodução/Warner Bros. Entertainment

Clique aqui para saber mais sobre o Cinema Comentado, a nova editoria do site Monteiro, além de conhecer os autores dos textos.

Talita Vieira.