O badalado Poço e a miséria do sujeito


A Netflix como serviço de streaming aparentemente se consolida como o esforço da adequação a uma nova realidade que gradualmente transforma as experiências cinematográficas em atividades que tem por companhia apenas a pipoca. A alimentação do serviço passou a recorrer à produção de filmes originais que às vezes surpreendem, às vezes nada mais são do que exagero promocional para custear o investimento em roteiros apelativos e filmados preguiçosamente, haja vista o enfadonho “O Limite da Traição” (2020).

O filme O Poço, porém, (The Platform – filme de suspense e terror espanhol de ficção científica, dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia e lançado em 2019) enquadra-se no primeiro contexto.


Foto: Reprodução/Netflix

Com uma estética que lembra uma peça teatral, a produção espanhola deu muito que falar, principalmente quando os espectadores se esforçaram em polarizar politicamente a obra.

No filme, Goreng, um sujeito ordinário (Iván Massagé) acorda em uma estrutura de concreto pouco inteligível aos desavisados. Acompanhado apenas de um idoso que lhe apresenta as particularidades da vida no “poço”.

O ambiente estéril apresenta uma abertura por onde, em níveis, é ofertado um banquete. Cada nível tem direito a se alimentar por um determinado período, quando a mesa com o banquete desce para o nível inferior.

De acordo com essa dinâmica, é previsível que os primeiros níveis acabem por se alimentar melhor do que os incontáveis níveis inferiores, relegados à fome e com ela, toda sorte de degradação moral.

A imediata associação com a realidade das dinâmicas sociais é feita pelo espectador, que associa a obra a uma perspectiva de denúncia e de redenção de desigualdades por meio do cinema. No entanto, se a inclinação à crítica liberal se revela na primeira parte do filme, a dimensão da conversão dos ideais socializantes e individualismo é a tônica do segundo momento.

Quando Goreng decide assumir a postura messiânica e “civilizatória” de ordenar a distribuição e promover a igualdade, acaba por se envolver em uma espiral violenta, que demonstra a fragilidade dos modelos de distribuição da renda assentados sob a tutela de um Estado forte.

O Poço bate daqui e bate de lá. A metáfora sem dúvida nos leva à reflexão de nossa fragilidade como sujeitos expostos à necessidade. Seja ela por comida, arte, literatura (Goreng tem direito a levar um objeto ao poço, escolhe a obra D. Quixote de Cervantes) ou afeto.


Foto: Reprodução/Netflix

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Marcio Vaccari.