Didática do afeto com as caricaturas de Vaccari


Lidar com as inúmeras transformações comportamentais ocasionadas pelo distanciamento e isolamento social não vem sendo uma tarefa fácil. Isso também se aplica aos profissionais da educação, pois, entre outros desafios, a necessidade de reter a atenção dos alunos agora se dá no mundo virtual.

O professor Marcio Vaccari já desenhou mais de 300 caricaturas. Foto: Divulgação/Acervo pessoal

Desde que a Monteiro suspendeu as aulas presenciais, em março, seus colaboradores têm se adaptado à temporária realidade com maestria. É o caso de Marcio Vaccari, professor de História, que lançou um desafio aos alunos a fim de incentivá-los a participar das aulas remotas com maior frequência e envolvimento.

Sobre a iniciativa voltada aos alunos, Vaccari conta: “Desde o início do isolamento, criei a estratégia de desenhá-los à medida que iam participando das aulas a distância. Isso os estimula a abrir a câmera e a interagir durante as aulas, tanto pelo chat quanto pela ativação dos microfones. Todos querem o desenho como memória deste período. Assim, me comprometi a desenhar todos, de todas as instituições em que trabalho, e já fiz cerca de 300 caricaturas”.

O professor de História, que também é desenhista, explica que a ideia das caricaturas surgiu devido à necessidade de se manter vivo o vínculo entre os alunos e a escola, em uma situação inusitada na qual a educação foi direcionada ao plano individual para ocorrer quase que em forma de tutoria. Além disso, a ideia surgiu para oferecer aos estudantes uma lembrança desse período de isolamento, que permanecerá na memória coletiva. 

“Muitos alunos não se sentiam motivados porque o espaço escolar, que é um espaço público e de socialização, de repente, foi transferido para o ambiente privado. E, nesse contexto, nós invadimos a privacidade um do outro. Foi um ponto que deixou os alunos muito tímidos, no começo”, relata Vaccari. Segundo o professor, outro fator que influenciou a criação do “desafio” é que, no isolamento, não há sensação de coletividade. Foi preciso romper com a solidão.

Elina Gratz, aluna da 3ª série do Ensino Médio, ao lado de sua caricatura. Foto: Divulgação/Acervo pessoal

De acordo com ele, os professores vêm se adaptando às aulas remotas utilizando suas próprias aptidões. “Eu sou um professor que tenho facilidade para desenhar. Então, utilizei o desenho para estimular a interação didática e a aproximação. Nesse período, todo professor teve que se reinventar. Mas é muito importante ajudar o aluno a se reinventar também, porque ele não pode ser passivo perante o ensino a distância. Ele tem que ser um sujeito ativo, tem que mostrar que compreende, que discute, que debate, que concorda e que discorda”, esclarece.

Vaccari defende que a escola não é um espaço apenas para a transmissão de conteúdo, mas “Um espaço de formação, e isso envolve aspectos emocionais, relacionais, a tradição do conhecimento clássico, a promoção das interações sociais, inserindo o indivíduo na sociedade, além de estimular os afetos – essa é a função da educação”. Por isso, seus desenhos têm a intenção de acentuar o vínculo entre o aluno e a escola. Ele argumenta: “Se abandonarmos o vínculo com a escola, abandonamos toda a tradição ocidental que foi construída. Os desenhos nos reaproximaram”. 

Para manter os alunos engajados, o professor não revela qual deles será desenhado. A cada aula, o mistério desperta curiosidade nas turmas que, consequentemente, sentem-se mais motivadas a participar. “Eu entregarei os desenhos pessoalmente, a cada um deles, quando nós voltarmos às aulas presenciais. O que eu faço é exibi-los na câmera e eles tiram print screen dos desenhos para guardá-los”, informa.

Algumas alunas do Ensino Médio afirmaram que se sentiram desmotivadas a interagir nas aulas online. “Várias vezes, me senti muito desmotivada. Tivemos que sair do ambiente escolar para ter aulas em casa – um lugar que, antes, era de conforto e descanso. Além disso, o contato próximo entre alunos e professores era uma grande motivação, e, agora, parece que estamos muito longe de todo mundo e um pouco sozinhos”, conta Elina Gratz, aluna da 3ª série. 

Laryssa Baesse, da 2ª série do Médio, e sua caricatura. Foto: Divulgação/Acervo pessoal

Sobre a iniciativa do professor de História, a estudante relata: “O Marcio sempre foi um professor muito querido que sempre teve muita facilidade para interagir conosco e nos deixar confortáveis. Quando ele faz um desenho seu, parece que você está realmente ali, na aula. Motiva e deixa o momento mais descontraído e divertido. Ele faz a caricatura de alguém a cada aula, então, eu penso ‘vou acessar a sala para ver quem ele vai desenhar hoje’. E isso é muito legal”.

Já Laryssa Baesse, aluna da 2ª série do Médio, conta: “Eu fiquei extremamente feliz com a proposta. Afinal, a ação diferenciada do Vaccari, ao utilizar a arte, é muito necessária para a descontração e amenização do momento tão delicado que estamos vivendo”.

Elina reconhece que iniciativas como essa demonstram que a Monteiro se preocupa com seus alunos de maneira individual: “Sempre tive um carinho muito grande pela Monteiro. Estudei lá a minha vida inteira e tenho muito orgulho disso. Tenho certeza de que os colaboradores se preocupam com todo mundo e sempre ouvirão a voz dos alunos. Acho que isso nos inclui muito mais no processo de aprendizagem. Eu me sinto muito confortável em me abrir com os professores. Se eu estiver passando por alguma dificuldade, nas disciplinas ou na vida pessoal, sei que eles irão me ouvir e me ajudar da forma que puderem!”.

Laryssa reforça a visão de Elina sobre a Monteiro e as atitudes dos professores: “É gratificante estudar em uma Escola que visa ensinar os conteúdos de uma maneira tão inovadora e que, ao mesmo tempo, apresenta total disposição para ouvir os alunos e tentar ajudá-los de acordo com cada situação pessoal”. 

Talita Vieira.