O papel da educação em Capitão Fantástico


Em tempos como os que estamos vivendo, muitos vêm se perguntando: qual é o papel da educação? Esta é uma das questões centrais levantadas pelo filme estadunidense Capitão Fantástico (2016), dirigido por Matt Ross, disponível em plataformas como YouTube e NOW. O longa-metragem não é indicado para menores de 14 anos.

Na obra cinematográfica, Ben Cash (Viggo Mortensen) e sua esposa Leslie (Trin Miller) decidiram se afastar da urbanização e da vida em sociedade para criar seus seis filhos em florestas selvagens no interior dos EUA. O cotidiano familiar segue uma rotina estruturada pelo pai, que não só ensina as crianças e o filho adolescente a caçar, a escalar montanhas e correr no meio da mata, mas também os orienta intelectualmente, incentivando-os à leitura e à aprendizagem de outros idiomas, matemática, física, literatura, filosofia, entre outros conhecimentos que são comumente ministrados em instituições de ensino.

A família Cash meditando na floresta. Foto: Reprodução/Universal Pictures

Quando Ben e seus filhos se deparam com uma situação que os impele a deixar o ambiente isolado para retornar à cidade, a família começa a passar por uma série de experiências novas, até então. A reincorporação dos personagens à vida social acaba por gerar muitos ensinamentos – principalmente ao pai: ele é levado a analisar, mais profundamente, a educação que vinha oferecendo aos filhos, na qual tanto acreditava.

Bodevan afirma que seus conhecimentos são baseados apenas em livros. Foto: Reprodução/Universal Pictures

No decorrer do filme, fica claro que o método de ensino e aprendizagem utilizado na floresta não visa à aprovação dos filhos em universidades, nem ao preparo deles para o mercado de trabalho. Ben procura transmitir às crianças valores como: o cuidado com a saúde (a importância do contato com a natureza, dos exercícios físicos e da alimentação), a sustentabilidade, o desenvolvimento de senso crítico e a criatividade, a valorização do conhecimento das ciências exatas, humanas e das artes e a importância da expressividade, da escuta e do diálogo. Entretanto, no desenrolar da narrativa, as falhas na educação provida por Ben vão sendo, aos poucos, evidenciadas. A maior delas pode ser observada na falta de socialização das crianças e nas consequências provocadas pela atitude extremista de criá-las em isolamento. 

É importante ponderar que, a princípio, enxergamos o personagem interpretado por Viggo Mortensen como alguém que provê uma educação completa aos filhos, por meio de uma relação horizontalizada entre eles. As cinco crianças e o adolescente são retratados com desejo e paixão por aprender – algo que, muitas vezes, falta no sistema de educação tradicional. A educação de Ben se mostra enriquecedora, motivo da frase de sua esposa, em determinada cena do filme: “Criamos o Paraíso fora da República de Platão. Nossos filhos serão reis filósofos”. Mas, será que uma educação diferenciada como essa é o bastante para a formação de seres mais humanos e, principalmente, felizes? 

Em uma relação horizontalizada, o diálogo é um dos pilares da família Cash. Foto: Reprodução/Universal Pictures

A transição da família para a cidade exibe as consequências provocadas pela falta de vivências compartilhadas com outras pessoas, que pensam e que vivem de maneira diferente,  na formação dos indivíduos. Essa carência é muito bem percebida por Bodevan, o filho mais velho, que, em certo momento do longa, contesta o pai: “A menos que esteja em um livro, eu não sei nada sobre nada!”.

Durante a reprodução do filme, é possível relacionar o discurso transmitido pela narrativa audiovisual com as ideias do psicólogo Lev Vygotsky, que é tido como referência nos estudos sobre educação. Ele defende a importância das interações sociais para a formação integral dos indivíduos e afirma que é a convivência social que promove, de fato, a humanização das pessoas.

Esteticamente, a produção é muito bonita e possui um enredo envolvente. Em meio a alguns momentos cômicos, o longa-metragem realiza, em seus 118 minutos, uma crítica ao capitalismo e às sociedades modernas e pós-modernas. Através da visão de mundo e dos princípios que Ben compartilha com seus filhos, a obra nos estimula a refletir sobre como vivemos, mas, sobretudo, faz com que nos perguntemos: qual é a melhor forma de se educar uma criança? Leve e forte, ao mesmo tempo, além de emocionante e inspirador, Capitão Fantástico se faz necessário: é um filme sobre valores. 

Clique aqui para assistir ao trailer de Capitão Fantástico.

Talita Vieira.