Como adolescentes estão construindo o próprio futuro?

Projeto de Orientação Profissional da Monteiro, em parceria com a FAESA, propõe autoconhecimento e informação para ajudar estudantes a pensar sobre escolhas sem transformar o futuro em uma cobrança.

Existe uma idade certa para saber o que fazer da vida?

Para quem está no Ensino Médio, essa pergunta pode aparecer de diferentes formas. No vestibular que se aproxima, nas conversas sobre faculdade, nas expectativas da família, nas comparações com os amigos ou até nas redes sociais. Aos poucos, a ideia de que é preciso escolher uma profissão começa a se misturar com outra, mais silenciosa: a de que também é preciso acertar.

Mas o futuro não costuma chegar com respostas prontas.

Foi partindo dessa compreensão que a Escola Monteiro iniciou o Projeto de Orientação Profissional e Vocacional, realizado em parceria com o curso de Psicologia da FAESA. Voltado para estudantes da 2ª e da 3ª série do Ensino Médio, o projeto propõe um espaço de reflexão sobre interesses, habilidades, expectativas e projetos de vida.

O primeiro encontro foi conduzido pelo professor Lucimauro Palles, neuropsicólogo clínico e docente da FAESA, e teve como foco o autoconhecimento. Mais do que apresentar uma lista de profissões ou indicar quais caminhos combinam com cada estudante, a proposta é ajudar os adolescentes a compreenderem melhor a si mesmos para que possam tomar decisões com mais autonomia.

“Escolher uma profissão não é apenas decidir ‘o que eu vou ser quando crescer’”, explica Lucimauro. Para ele, esse momento envolve dúvidas sobre quem cada jovem é, do que gosta, no que acredita e sobre que tipo de vida deseja construir.

Por isso, a orientação profissional não precisa terminar com uma profissão definida. Pode começar, justamente, com uma pergunta.

Lucimauro Palles, neuropsicólogo clínico e docente da FAESA

Antes da profissão, a pessoa

Ao longo do projeto, atividades, testes psicológicos, conversas e momentos de reflexão ajudam os estudantes a reconhecer seus interesses, habilidades e valores, além de conhecer diferentes possibilidades de formação e atuação profissional. O psicólogo, nesse processo, não ocupa o lugar de quem decide. Seu papel é acompanhar, provocar reflexões, ampliar possibilidades e ajudar a organizar as dúvidas.

Para Felipe Leal, estudante que participa do projeto, uma das dificuldades está justamente em olhar para si mesmo e reconhecer aquilo que sabe fazer, aquilo que ainda precisa desenvolver e aquilo de que realmente gosta.

“Eu tenho muita dificuldade em pensar sobre mim mesmo, tenho dificuldade em saber minhas melhores habilidades, quais são minhas fraquezas, minhas dificuldades e sobre o que eu gosto. Acho que tenho dificuldade nesse autoconhecimento.”

É nesse processo de se conhecer melhor que Felipe percebe uma das contribuições do projeto. Para ele, as atividades ajudam a relacionar seus interesses e características pessoais com os caminhos que poderá construir no futuro.

Felipe Leal - Aluno da 3ª série do Ensino Médio

“Esse projeto me ajuda a me entender melhor e conseguir me guiar mais, linkar essa trajetória com quem realmente eu sou.” A experiência também mostra que pensar sobre uma profissão pode significar pensar sobre muito mais do que o trabalho.

Julia Pagotto, por sua vez, conta que já vem refletindo sobre sua escolha profissional há algum tempo, especialmente agora que o fim do Ensino Médio torna essas possibilidades mais próximas. Interessada pelas áreas de humanas e por atividades criativas, ela considera caminhos como publicidade e propaganda ou outras áreas da comunicação.

“Eu sempre fui de humanas, gosto muito de história, geografia, sociologia, então penso em ir por essa área. Mas também tenho minha parte e gosto muito de coisas criativas. Então penso em publicidade e propaganda ou alguma coisa na área de comunicação, mas que envolva criatividade humana.”

A fala de Julia revela que, mesmo quando existe uma área de interesse, a escolha continua sendo um processo de descoberta. Conhecer aquilo de que se gosta não significa necessariamente ter todas as respostas.

Julia Pagotto - Aluna da 2ª série do Ensino Médio

Quando escolher vira uma cobrança

A pressão para decidir cedo pode vir de muitos lugares. Família, escola, amigos, redes sociais e a própria sociedade contribuem para construir a ideia de que o jovem precisa definir rapidamente seu caminho e alcançar sucesso o quanto antes.

Nesse cenário, a pergunta “o que combina comigo?” pode acabar sendo substituída por outra: “o que esperam que eu seja?”.

É quando uma escolha pode passar a ser orientada principalmente por expectativas externas, status, dinheiro ou comparação. Alguns adolescentes podem escolher aquilo que parece mais seguro para não decepcionar outras pessoas. Outros, diante do medo de errar, preferem adiar a decisão.

Para Felipe, existe ainda outra dificuldade: escolher hoje sem saber exatamente como será o mundo em que irá estudar e trabalhar amanhã.

“Eu acho que o futuro é muito incerto. Eu não sei como vai estar a conjuntura econômica, as expectativas para o mercado e tal. Fico muito em dúvida sobre como vou conciliar escolher alguma coisa de que eu goste, que eu me sinta bem estudando e trabalhando, sendo que não faço ideia de como vai ser o futuro.”

A preocupação ajuda a dimensionar o desafio enfrentado por muitos adolescentes: a escolha profissional acontece no presente, mas está cercada por perguntas sobre um futuro que ainda não pode ser conhecido. Para Lucimauro, uma das contribuições da orientação profissional é mostrar que a dúvida não significa atraso ou despreparo.

“O adolescente não precisa ter a vida inteira planejada aos 16 ou 17 anos”, afirma.

Essa perspectiva também abre espaço para reconhecer que escolhas podem mudar. Novas experiências podem trazer interesses que ainda não existiam, modificar expectativas e até apresentar caminhos que o jovem sequer conhecia.

Primeiro encontro do Projeto de Orientação Profissional e Vocacional, realizado pela Escola Monteiro em parceria com o curso de Psicologia da FAESA.

Uma profissão também é um jeito de viver

É justamente por isso que o projeto propõe ampliar a pergunta. Para Julia, pensar sobre o futuro não deveria significar apenas escolher um curso ou uma profissão, mas refletir sobre a vida que se deseja construir.

“Eu acho que o projeto estimula, te convida a pensar um pouco mais sobre você em áreas que geralmente você não pensa. Às vezes a gente fica muito focado no ‘que eu quero fazer de profissão’, mas não pensa sobre o que é essa carreira, sobre o que envolve o estilo de vida, em relação ao salário, à rotina.”

Para ela, essa reflexão ajuda a perceber que a profissão não existe isoladamente. Ela se relaciona com tempo, rotina, expectativas, condições materiais e com aquilo que cada pessoa espera para a própria vida.

“Ele também convida você a pensar em outras áreas da sua vida que talvez você não acredite que estejam relacionadas com uma profissão, mas que talvez ajudem a pensar numa profissão para mais do que o trabalho, mas sim um todo, o estilo de vida mesmo.”

A fala desloca a escolha profissional de uma resposta definitiva para uma construção mais ampla: não apenas “o que eu quero trabalhar?”, mas “que vida eu quero construir e de que maneira o trabalho pode fazer parte dela?”.

Apoiar sem escolher pelo outro

Nesse processo, escola e família têm um papel importante. Não para escolher pelo adolescente, mas para criar condições para que ele possa escolher. Para Lucimauro, isso começa pela escuta. Em vez de perguntar apenas “Você já decidiu o que vai fazer?”, familiares podem perguntar “O que tem despertado sua curiosidade?”, “Quais atividades você gosta de fazer?” ou “Como podemos ajudar você a conhecer melhor essas possibilidades?”.

A escola, por sua vez, pode oferecer informações sobre profissões, cursos e caminhos de formação, mas sem transformar essa descoberta em uma corrida contra o tempo. O objetivo é que o estudante perceba que sua escolha é sua, mas que não precisa ser feita sozinho.

“Escolher uma profissão não é assinar um contrato com o futuro”, resume Lucimauro. É fazer uma escolha possível no presente, considerando aquilo que se conhece naquele momento e permanecendo aberto às experiências que ainda virão.

Talvez seja essa uma das aprendizagens mais importantes quando se fala sobre futuro: não é preciso saber exatamente onde se vai chegar para começar a construir um caminho. É possível pesquisar, experimentar, mudar de ideia, descobrir novos interesses e fazer novas escolhas ao longo da vida. E, entre tantas perguntas que acompanham o fim da escola, talvez uma das mais importantes seja justamente esta: não apenas o que você quer ser, mas quem você está descobrindo que é.