Da contemplação à escrita: uma aula de ioga, diferentes formas de narrar a mesma experiência

Aula de Ioga com os alunos do 6° ano - Imagem: Acervo Monteiro

Uma aula de ioga, uma praça à beira-mar e um convite para observar tudo ao redor. Depois de alongar o corpo, respirar e contemplar a paisagem, os alunos do 6º ano da Escola Monteiro voltaram para a sala de aula com uma nova proposta: transformar aquela experiência em texto.

O que poderia ter sido apenas uma atividade vivenciada fora da rotina escolar se tornou matéria-prima para a produção de narrativas. O mar, o céu, o Convento da Penha e o som das ondas apareceram nos textos, mas também elementos menos previsíveis, como o cheiro de peixe, um cachorro, uma tartaruga e até a sensação de fome. Afinal, embora todos tivessem participado da mesma aula, cada aluno percebeu e registrou a experiência à sua própria maneira.

A atividade ao ar livre, conduzida pelo professor de ioga Gabriel Bouez, levou os estudantes à praça para um momento de alongamento, contemplação e observação da paisagem. A experiência chamou a atenção da professora Nelmary Cavalcanti, que percebeu ali uma possibilidade de aproximar a vivência dos conteúdos que estavam sendo trabalhados nas aulas de Língua Portuguesa.

“Assisti à aula de ioga sobre contemplação e achei que se encaixava perfeitamente com conteúdos que estavam sendo estudados em minha disciplina”, explica a professora.

Antes da produção dos textos, os alunos estudaram os elementos da narrativa e as possibilidades da descrição objetiva e subjetiva de personagens e ambientes. O percurso também incluiu conteúdos gramaticais relacionados ao uso dos adjetivos, das locuções adjetivas e dos graus dos adjetivos, recursos que seriam mobilizados durante a escrita.

Desta vez, porém, não era preciso inventar um cenário, imaginar personagens ou criar uma situação fictícia. A experiência já havia acontecido. Bastava revisitar aquilo que cada um tinha visto, ouvido, sentido e transformar essas percepções em palavras.

Nelmary Cavalcanti, professora de Língua Portuguesa na Monteiro

Uma mesma paisagem, diferentes olhares

Para Cadu Braga, do 6º A, a experiência foi marcada principalmente pela paisagem e pela atmosfera criada durante a contemplação. Depois dos alongamentos e do momento em que a turma fechou os olhos, ele registrou: “Com os olhos fechados, passamos a contemplar o som tranquilo. Quando abrimos os olhos, todos estavam cheios de alegria.”

A narrativa de Rafaela Sarmento, também do 6º A, percorreu um caminho bastante diferente. Enquanto observava a paisagem, ela identificou as ondas, os pássaros, o Convento da Penha e a Terceira Ponte. Quando a turma fechou os olhos, porém, outros elementos passaram a ocupar o centro da narrativa: “No mesmo instante, o barulho das ondas do mar se intensificou junto com o dos pássaros e subiu um cheiro horrível de peixe morto misturado com água do mar.”

Na mesma atividade, portanto, aquilo que para um estudante se transformou em um momento de tranquilidade e alegria, para outra se tornou uma experiência marcada pelos sons e cheiros do ambiente. Helena Freitas, do 6º B, também construiu sua narrativa a partir dos elementos que compunham a paisagem. Em seu texto, a contemplação aparece associada à calmaria: “Hoje, na aula de yoga, o professor Gabriel levou a gente à praça para contemplar a natureza, que estava calmíssima.”

A paisagem também ganhou destaque no texto de Marina Batista, mas a estudante construiu sua descrição a partir das cores e dos elementos que compunham aquele cenário: “A vista lá é lindíssima, tem uma grama verde e viva, o mar claro que bate nas rochas, a ponte, o convento…”

Cadu Braga
Rafaela Viola Sarmento
Helena Benevides Freitas
Marina Batista

Diante do mesmo espaço, cada estudante encontrou seus próprios pontos de atenção. Para alguns, a experiência foi marcada pelos sons e pela tranquilidade; para outros, pelos cheiros, pelos animais, pela paisagem ou pelas sensações despertadas durante a contemplação. A descrição, no entanto, não se limitou ao cenário inicialmente esperado. O texto também registrou um cachorro, o cheiro da maresia, de peixe e até uma tartaruga observada durante a atividade: “Eu vi uma tartaruga muito fofa enquanto estávamos lá.”

Já Miguel Carnielli construiu uma espécie de inventário sensorial da experiência. Em sua narrativa, observar, ouvir e sentir se transformaram em diferentes caminhos para descrever o mesmo lugar: “Eu senti cheiro de mato, cheiro de cigarro e cheiro de comida porque eu estava com fome. Eu ouvi as ondas do mar batendo nas pedras e uma tartaruga nadando.” Ao final, Miguel também deixou clara sua relação pessoal com a atividade, e utilizou um dos recursos trabalhados em sala para intensificar sua avaliação: “Eu gostei bastante da aula e eu gostaria de ter mais aulas como essa, porque gostei muitíssimo da aula de yoga.”

Na narrativa de Luisa de Moraes Ribeiro, a praça aparece como um espaço de cores, animais e paisagens, em contraste com o retorno à rotina escolar. Entre o mar, as maritacas, as tartarugas e o Convento da Penha, ela descreveu o local como um espaço de tranquilidade: “Eu sentia que lá era um lugar de paz, de descanso, de harmonia.”

O encerramento, porém, revela outra perspectiva sobre a experiência. Depois do momento ao ar livre, a estudante retorna à sala de aula e estabelece uma comparação direta entre os dois espaços: “Lá era muito legal. […] E voltei pra sala cinza e sem graça.”

Miguel Carnielli
Luisa de Moraes

Quando a experiência se transforma em matéria-prima

As produções mostram que, embora todos tenham participado da mesma atividade, não houve uma única forma de percebê-la ou narrá-la. O mesmo mar apareceu como paisagem, som, cheiro e espaço de contemplação. A mesma tartaruga chamou a atenção de diferentes estudantes. O ambiente, por sua vez, foi descrito tanto como “calmíssimo” quanto como um lugar atravessado pelo cheiro de peixe e mar.

Para Nelmary, essa é justamente uma das potencialidades de partir de uma experiência concreta para desenvolver a produção textual. A expectativa era que os estudantes conseguissem “descrever com maior intensidade e realidade cores, cheiros, formas, pessoas, objetos e sensações vividas durante a aula”, além de narrar o que haviam realizado.

Durante a leitura dos textos, a professora destaca que a riqueza de detalhes e a capacidade de descrever subjetivamente aquilo que os alunos viram e sentiram foram alguns dos aspectos que mais chamaram sua atenção. Segundo Nelmary, experiências fora da sala de aula podem contribuir para esse processo justamente porque oferecem aos alunos referências concretas para a escrita. “Toda vivência fora de sala de aula enriquece o processo de escrita porque não artificializa esse processo”, afirma.

Imagem: Acervo Monteiro

Ao escrever sobre algo que haviam acabado de experimentar, os estudantes não precisaram partir de uma situação hipotética. Cada texto nasceu de uma memória comum, mas foi construído a partir de percepções individuais. Para a professora, atividades que envolvem os alunos de maneira positiva também podem favorecer sua capacidade de expressão. “Não se esqueça o que foi agradável; daí a facilidade maior na escrita: não precisar inventar o que vai escrever”, conclui.

Entre o som das ondas, o cheiro do mar, o calor do sol e a paisagem observada à beira-mar, uma única aula deu origem a diferentes narrativas. E foi justamente nessa diferença entre os olhares que a atividade encontrou uma de suas maiores possibilidades: mostrar que, diante de uma mesma experiência, cada estudante tem algo próprio para observar, sentir e, principalmente, escrever.