Toy Story 5: O que cabe na infância? Brincadeiras, telas e novas formas de interação

Como equilibrar o uso das telas com outras formas de brincar, criar e interagir? Toy story 5, filme mais recente da franquia, aborda de forma divertida a temática uma questão cada vez mais presente na rotina de crianças e adolescentes: qual lugar a tecnologia deve ocupar na infância?

Na animação, Bonnie, de oito anos, ainda encontra nos brinquedos uma forma de brincar de que gosta, enquanto outras crianças de sua idade já estão mais interessadas em seus tablets. O desejo de pertencer ao grupo faz com que seus pais comprem para ela uma Lilypad, dispositivo que rapidamente conquista sua atenção e passa a disputar espaço com Jessie e os demais brinquedos.

A princípio, a narrativa parece construir uma oposição simples entre brinquedos e tecnologia. Mas, ao longo do filme, essa disputa ganha outros contornos. Pois, embora a Lilypad passe a disputar a atenção de Bonnie e transforme sua relação com os brinquedos, o dispositivo também possibilita que ela encontre novas formas de conexão com outras crianças. A tecnologia, assim, aparece ao mesmo tempo como elemento de transformação da brincadeira e como possibilidade de interação. Atravessando o filme com uma narrativa dinâmica que se expande para além de escolher entre os dois, o filme convida a pensar sobre os espaços que cada experiência ocupa na vida da criança e sobre como elas podem coexistir sem que uma substitua completamente a outra.

É justamente nessa perspectiva que Jessica Starling, especialista em inteligência de dados e mãe do aluno André, da 1ª série, propõe pensar a relação de crianças e adolescentes com as telas. Para ela, restringir completamente o acesso à tecnologia não é um objetivo realista, nem necessariamente desejável. “A tecnologia faz parte da vida social, educacional e, futuramente, profissional dessa geração”, afirma.

Jessica Starling

Como estabelecer um limite?

Quando se fala em uso de telas, uma das primeiras preocupações das famílias costuma ser o tempo de exposição. Embora esse aspecto seja importante, Jessica chama atenção para uma questão mais ampla: o que a tela está ocupando na vida de crianças e adolescentes?

Imagem: Pixar

Uma hora diante de um dispositivo pode representar experiências muito diferentes. Pode ser um momento de estudo, uma conversa com amigos, a criação de um vídeo ou uma atividade de lazer. Também pode ser um período de consumo automático de conteúdos, em que um vídeo leva a outro sem que a pessoa perceba quanto tempo passou.

Por isso, a especialista propõe olhar não apenas para a quantidade de tempo, mas para aquilo que pode estar sendo substituído. Quando a tela passa a acompanhar todas as refeições, preencher momentos de espera ou ocupar o espaço destinado ao sono, à atividade física, à convivência e à brincadeira, o debate deixa de ser simplesmente sobre tecnologia e passa a envolver a organização da própria rotina.

Essa ideia ajuda a ampliar a leitura de Toy Story 5. O conflito não está necessariamente na existência da Lilypad, mas no momento em que ela começa a ocupar um espaço que antes pertencia aos brinquedos. A pergunta deixa de ser “tela ou brinquedo?” e passa a ser: o que essa tecnologia acrescenta e o que ela pode estar tirando do lugar?

O papel da família: acompanhar sem transformar em vigilância

Se o objetivo não é simplesmente proibir, como estabelecer limites?

Para Jessica, a resposta passa pela mediação. Em vez de uma relação baseada exclusivamente no controle, ela defende que famílias acompanhem as experiências digitais dos filhos, conversem sobre os conteúdos consumidos e construam combinados que façam sentido para cada realidade.

Esse processo começa, inclusive, pelo interesse. “Se interessem genuinamente pelos interesses dos seus filhos, dentro e fora da internet”, aconselha. Perguntar sobre os jogos, os vídeos, os memes e as pessoas que acompanham nas redes pode parecer uma atitude simples, mas cria um espaço de diálogo que se torna especialmente importante quando surgem situações mais delicadas.

A mediação também pressupõe coerência. Para Jessica, não faz muito sentido estabelecer uma regra para os filhos que os próprios adultos não conseguem cumprir. Se a família deseja que o celular não esteja presente durante as refeições, por exemplo, esse combinado precisa ser compartilhado por quem está à mesa.

Portanto, a proposta é ajudar crianças e adolescentes a desenvolverem gradualmente a capacidade de fazer escolhas mais conscientes, ao invés de fiscalizar cada minuto conectado. Conforme crescem, a autonomia também precisa crescer.

Imagem: Pixar

Aprender a questionar a própria tela

Essa autonomia passa por compreender que nem tudo o que aparece em uma tela chegou até nós por acaso.

Jessica chama atenção para a importância da alfabetização algorítmica: entender que as plataformas aprendem com nossos comportamentos, aquilo que assistimos, curtimos, pesquisamos ou ignoramos, e utilizam essas informações para personalizar o conteúdo apresentado.

Nesse sentido, desenvolver uma relação consciente com a tecnologia significa também aprender a questionar o próprio feed. Por que determinado conteúdo apareceu? Que comportamentos podem ter indicado ao algoritmo que aquele assunto é de interesse? Como seria a experiência digital de alguém com interesses completamente diferentes?

Essa consciência amplia o significado de “usar bem” a tecnologia. Justamente porque não basta saber operar um aplicativo, também é preciso compreender, ainda que de maneira adequada à idade, os mecanismos que influenciam aquilo que consumimos.

Imagem: Pixar

Como utilizar as telas de maneira positiva?

Ao final, Toy Story 5 apresenta uma saída diferente daquela que a princípio parecia estar em jogo. A tecnologia não precisa necessariamente ser derrotada para que os brinquedos continuem existindo. A própria Lilypad pode contribuir para que Bonnie encontre novas conexões e descubra outras possibilidades de interação.

E é aí que a animação encontra uma questão importante para além da própria história, a tecnologia não precisa ocupar o lugar de todas as outras experiências para fazer parte da infância.

Brincar, conversar, criar, movimentar-se, conviver presencialmente, experimentar o tédio e descobrir maneiras de ocupar o próprio tempo continuam sendo experiências importantes. Ao mesmo tempo, jogos, dispositivos, redes e outras ferramentas digitais já fazem parte da realidade de crianças e adolescentes e também podem oferecer oportunidades de aprendizagem, criação e socialização.

Talvez a pergunta mais produtiva, então, não seja quanto uma criança pode ou não pode usar uma tela. E sim: que lugar essa tela está ocupando em sua vida? O que ela acrescenta? O que ela substitui? E como podemos ajudar crianças e adolescentes a fazer essas escolhas com cada vez mais autonomia?

Como mostra Toy Story 5, a questão não precisa ser uma disputa entre brinquedos e telas. Pode ser uma oportunidade para aprender a fazer com que diferentes experiências encontrem espaço na mesma infância.

Texto: Sara Bendia, Revisão: Deivid D’Paula