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No século XVIII, a rainha da Inglaterra, conhecida como Charlotte, emerge como a protagonista de uma história romântica entre membros da alta sociedade, marcada pela existência de títulos de nobreza e uma aristocracia estabelecida. No entanto, seu papel vai além desse aspecto, pois ela se torna o pivô de uma transformação e uma ruptura na imagem da monarquia britânica, já que a nobreza e a realeza tradicionais são abaladas pela ascensão de uma rainha negra.

Esse é o plano de fundo no qual se dá o enredo da série “Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton”, um spin-off norte-americano pertencente ao universo dos livros de romance da autora Julia Quinn, lançado em 2023 pela Netflix. Nesse meio tempo, a série se destacou por contar uma história de amor épica e, além disso, por abordar de maneira habilidosa questões raciais, como a pauta do embranquecimento negro, incorporando elementos dramáticos em suas camadas narrativas.

História e origens

Dirigida por Tom Verica, a série e os livros de Julia Quinn se inspiram na alta sociedade do século XVIII, abordando elementos históricos nas narrativas e reimaginando os dramas pessoais e sociais que os personagens poderiam ter vivido em sua época. Por conta disso, a protagonista, Charlotte, é representada como uma mulher negra, sendo interpretada pelas atrizes britânicas India Ria Amarteifio e Golda Rosheuvel, as quais evocam a monarca em diferentes períodos de sua vida.

A obra acompanha a importante figura de Charlotte na chegada ao trono britânico, assim como a história de amor com o rei George. Entretanto, a ideia de se conceber o protagonismo de uma monarca a uma personalidade negra não é apenas liberdade poética, mas sim uma decisão baseada em evidências de que a rainha Charlotte de fato era afrodescendente.

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Golda Rosheuvel como Charlotte – Imagem – Netflix

Tais evidências foram reveladas quando a corte britânica viu o príncipe Harry formar matrimônio com Meghan Markle. A união, vista como interracial, repercutiu o mundo como a primeira vez em que uma pessoa negra pertenceria à família real britânica. Contudo, tal repercussão fez com que historiadores do mundo revissem a linhagem real e encontrassem na figura de Charlotte a possibilidade de uma pessoa negra ter não apenas pertencido à monarquia, mas também de ter se sentado no trono por mais de 50 anos.

Nascida e criada na alta sociedade do século XVIII, Charlotte passou seus primeiros anos no norte da Alemanha. Aos 17 anos, foi enviada para a Inglaterra, onde estava prometida para se casar com o monarca. O rei propôs o casamento em julho de 1761, mas a cerimônia só ocorreu em setembro, quando a nobre finalmente chegou a Londres e teve seu primeiro encontro com George.

A história de Charlotte serve como uma oportunidade  para um debate muito pertinente em todas as regiões do globo, o embranquecimento e o racismo estrutural. Ao longo de toda a série, a personagem é alvo de discriminação,  quando a cor de sua pele ganha o protagonismo de determinadas situações, como, por exemplo, na cena da pintura real. Ao perceber que sua pele está sendo representada muito mais clara do que realmente é, Charlotte chama atenção do autor do retrato pintado e solicita que seja pintada da maneira a representar sua tonalidade correta. Entretanto, tem seu pedido negado pela presença de outro personagem, a princesa viúva, que alega que ela deve ser pintada com uma tonalidade mais clara, para que “brilhe”.

Professora de Literatura da Escola Monteiro Sabrina Xavier Amaral

Para a professora de Literatura da Escola Monteiro, Sabrina Xavier Amaral, a atitude de embranquecer a tonalidade da pele de Charlotte na série não apenas reflete uma perspectiva racista que desvaloriza a pele negra, mas também está relacionada à higienização social na corte. Historicamente, a pele negra era vista como um símbolo de não desenvolvimento e de degradação, enquanto a pele branca era considerada superior e benéfica.

“A padronização do branco, por meio do embranquecimento, estabelece a norma, o padrão e o universal, excluindo tudo o que diverge da ideia de normalidade e pertencimento. A ausência de representatividade não resulta em representação e causa profundos impactos na construção da autoestima e identidade, gerando um sofrimento silencioso. Ninguém deseja sentir-se excluído”, explica. 

“Se a mídia como um todo não reconsidera e não representa adequadamente, não apenas os negros, surge a falsa concepção de um mundo branco e homogeneizado. No caso do Brasil, apesar de inúmeras tentativas de eliminar a marginalização dos corpos pretos, de acordo com dados do IBGE, os indivíduos negros constituem uma maioria quantitativa, porém ainda são tratados como um grupo minorizado”.

Além disso, a busca por um tom de pele mais claro está ligada à ascensão social, conforme explicado pelo psiquiatra Frantz Fanon em seu livro “Pele Negra, Máscaras Brancas”. De acordo com ele, sob a influência do colonialismo, as pessoas negras eram forçadas a modificar tanto sua aparência externa quanto sua identidade interna, para se aproximarem do ideal de branquidade, a fim de conquistar posições de destaque na sociedade. Isso frequentemente exigiu que renunciassem a suas culturas, relações sociais e características pessoais.

Livro: Pele Negra, Máscaras Brancas – Frantz Fanon

O momento da série em questão ilustra claramente essa realidade em que Charlotte renuncia a suas características mais marcantes para evitar conflitos na corte. Essa atitude evidencia a pressão social e os estereótipos raciais que obrigavam as pessoas a negar suas origens e adotar padrões brancos predominantes. Essa dinâmica complexa de poder, racismo e opressão tem raízes históricas.

Por conta disso, é fundamental compreender e reconhecer a presença do racismo, do embranquecimento e da higienização social, tanto no contexto da série quanto em outras situações. Ao analisar essas questões, podemos desafiar essas estruturas opressivas e trabalhar em direção a uma sociedade mais inclusiva e justa.

Branqueamento e miscigenação no Brasil

Conforme explicado pelo professor de História da Escola Monteiro Patrique Santos, o conceito de embranquecimento, também conhecido como branqueamento, surgiu no final do século XIX e persistiu ao longo do século XX, com o objetivo de “branquear” a população brasileira. Essa teoria racista, importada da Europa, baseava-se nos supostos “estudos” do darwinismo social, influenciando uma série de antropólogos evolucionistas a desenvolverem teses que propunha uma divisão hierárquica entre seres humanos, com populações negras e indígenas sendo categorizadas como inferiores.

A dominação sobre os corpos negros nessa época se dava de maneira tão evidente que se refletiu em diversos âmbitos da cultura e conhecimento. A arte foi um desses âmbitos que pautou o que estava acontecendo. Como é possível ver no famoso quadro de Modesto Brocos, chamado de “A Redenção de Cam”, que  evidencia uma senhora negra comemorando o fato de seu neto ter nascido branco.

Professor de História da Escola Monteiro Patrique Santos

“No Brasil, figuras proeminentes como Nina Rodrigues e Oliveira Vianna difundiram teorias racistas que condenavam qualquer forma de miscigenação racial, temendo a suposta degeneração do povo brasileiro devido à sua mistura racial”, comenta o professor.

“A mestiçagem e miscigenação eram vistas como um sinal de progresso humano apenas se estivesse acompanhada do embranquecimento da população. Essas teorias discriminatórias refletiam uma visão distorcida e preconceituosa, negando o valor da diversidade étnica e cultural presente no Brasil. Além disso, ignoravam os múltiplos processos históricos e sociais que contribuíram para a formação da sociedade brasileira, marcada pela miscigenação e pelo encontro de diferentes grupos étnicos”, explica.

O professor destaca a importância de abordar o tema do embranquecimento negro e apagamento do protagonismo negro na história. “A política de branqueamento da nação buscava uma higienização moral e cultural da sociedade brasileira. Clarear a população para progredir o país passou a ser um projeto de nação defendido no século XIX, mas que avançou pelo século XX. Projeto que envolvia eugenização e a higienização social enquanto políticas públicas”, argumenta.

Ainda segundo Santos, o branqueamento no Brasil foi um projeto apresentado à comunidade mundial no primeiro Congresso Universal das Raças em 1911. O projeto foi colocado em prática, a partir das políticas de eugenia, ou seja, “limpeza” das pessoas que não correspondem ao padrão branco europeu, tal proposta, inclusive, previa a extinção da população negra em um período de 100 anos. Uma das políticas eugenistas adotadas pelo Estado brasileiro foi o incentivo para a vinda de imigrantes europeus para o Brasil.

Ao longo dos séculos, o racismo estrutural tem operado de diversas maneiras para eliminar a população negra. Essa eliminação ocorre por meio de genocídio, exclusão territorial, fome, apagamento e silenciamento, apropriação cultural, epistemicídio e outras formas de opressão.

Machado de Assis

“O branqueamento é também uma dessas estratégias. Existem diversas figuras negras que foram embranquecidas pela história única racista a tal ponto que muita gente não sabe por exemplo, que Machado de Assis era um homem negro”. Além disso, o professor alegou que “é comum que as listas de intelectuais mais conhecidos de uma época não contenham pessoas negras”. Isso evidencia que tal fato revela tanto a desigualdade social histórica quanto o simples apagamento de sua cor de pele.

Portanto, ao abordarmos o apagamento histórico da população negra, especialmente no contexto brasileiro, estamos evidenciando que somos uma nação profundamente marcada pelo racismo e preconceito. O racismo estrutural e sistêmico age para apagar de nossa memória as lutas e conquistas do povo negro, buscando silenciar o legado atroz da escravidão e negando o protagonismo negro na formação do Brasil.

Representação

Não há evidências conclusivas sobre a origem racial de Charlotte na série, e mesmo que ela tenha ascendência afrodescendente, de acordo com historiadores, isso ocorreria há mais de dez gerações. Portanto, não se pode afirmar com certeza se ela era negra ou não. No entanto, o que se pode fazer em relação a esse assunto é refletir sobre questões importantes.

Nos anos de ouro do cinema e na mídia mainstream, pouco se falava na inclusão de personagens negros ou de pele não branca em geral em tramas de relevância na narrativa. Já nos últimos anos, essa pauta vem ganhando repercussão. Entretanto, ainda se gera embate em diferentes níveis sociais, por conta das ideias raciais que se fundiram com o senso comum. Assim como Charlotte foi embranquecida na série para higienizar a monarquia, determinados grupos sociais não permitem que pessoas negras se apropriem de espaços historicamente dominados por brancos.

Pintura real e representação nasérie da Rainha Charlotte

Nesse contexto, Sabrina Xavier Amaral explica que a literatura, sem querer atribuir-lhe um caráter apenas instrumental, alcança nosso ser em diversos aspectos, inclusive o psíquico. Assim, ela pode levar um indivíduo a refletir e compreender toda essa estrutura que violenta a população negra todos os dias. Portanto, a literatura, como veículo de expressão artística, desempenha um papel crucial na conscientização e na análise crítica das questões raciais, contribuindo para a mudança de perspectiva e a busca por uma sociedade mais inclusiva e equitativa.

“Essa arte vai atuar nas mais diferentes camadas da constituição do ser, inclusive levando-o a agir na direção dos reparos justos e, necessariamente, imediatos para com os negros brasileiros”, conclui.

Por isso o debate que a série permite é importante, pois é possível compreender e reconhecer a presença do racismo, do embranquecimento e da higienização social, tanto no contexto retratado na série quanto em outras situações. Essa análise crítica nos capacita a desafiar essas estruturas opressivas e buscar uma sociedade mais inclusiva e justa.

Texto por Deivid de Paula