Zootopia 2: diversidade, empatia e a arte de conviver

Imagem: Divulgação do Filme, Disney/Pixar

No primeiro Cinema Comentado do ano, partimos de uma pergunta que parece simples, mas carrega um mundo dentro dela: o que uma animação pode revelar sobre quem somos? Com a chegada de Zootopia 2 aos cinemas, somos convidados a ir além das cores vibrantes, do humor afiado e do ritmo acelerado. Por trás dos animais falantes e das cenas de ação, existe uma narrativa que fala baixo e justamente por isso, alcança fundo.

A continuação retoma um universo que nunca tratou a diferença como detalhe. Antes mesmo da estreia, já se anunciava como uma história sobre convivência, escolhas e afetos, disfarçada de fábula moderna. Em Zootopia, os conflitos não rugem nem correm apenas pelas ruas da cidade: eles atravessam relações, expectativas e sentimentos que reconhecemos como nossos.

 

O filme nos provoca sem apontar o dedo, nos conduz a um olhar para dentro e a perguntar, com honestidade: como reagimos ao que foge do nosso padrão? Até onde conseguimos confiar no outro, mesmo quando ele é diferente de nós? E como aprendemos a lidar com nossas emoções dentro das relações que escolhemos construir?

Talvez seja isso que faz Zootopia 2 tocar adultos e crianças ao mesmo tempo: ele fala de crescimento, escuta e convivência, temas antigos, essenciais, e mais atuais do que nunca.

Imagem: Divulgação do Filme, Disney/Pixar

Judy Hopps e Nick Wilde: imperfeitos como a vida real

Judy Hopps e Nick Wilde são o coração pulsante de Zootopia não apenas pelo carisma, mas pelo que simbolizam, uma vez que eles encarnam nossas contradições mais comuns: o desejo de acertar, o medo de falhar, a dificuldade de confiar. Não são heróis idealizados. Discordam, tropeçam, ferem e são feridos. E é justamente aí que o filme ganha espessura: na recusa de relações perfeitas e na aposta em vínculos reais.

A dinâmica entre os dois revela algo essencial sobre as relações humanas: conviver não é apagar diferenças, é sustentá-las sem romper o laço. Amizade, assim como qualquer relação significativa, exige escuta, paciência e a coragem de se deslocar do próprio ponto de vista. Não se trata de concordar sempre, mas de permanecer em diálogo.

Imagem: Divulgação do Filme, Disney/Pixar

Nesse sentido, o filme sugere que duas subjetividades distintas não apenas podem coexistir, como podem construir algo que nenhuma delas alcançaria sozinha. A diversidade, aqui, não aparece como um problema a ser administrado, mas como uma força criadora, um lembrete de que o encontro com o diferente amplia o mundo.

Essa leitura encontra eco em pensadores que compreenderam o “outro” como condição de transformação. Para Martin Buber, é na relação, no espaço do entre, que o humano se constitui. Já Hannah Arendt nos lembra que viver em pluralidade não é uma ameaça, mas o fundamento da vida em comum. No longa-metragem, Judy e Nick aprendem exatamente isso: que errar, discordar e até se machucar não inviabiliza a amizade, pode, ao contrário, torná-la mais profunda e consciente.

Assim, Zootopia 2 reafirma uma ideia antiga e urgente, tanto para a educação quanto para a vida em sociedade: a diversidade não é um obstáculo a ser superado, mas uma potência que só se revela quando há empatia, diálogo e disposição para aprender com o outro. Simples, clássico e ainda revolucionário.

Imagem: Divulgação do Filme, Disney/Pixar

Zootopia como espelho da sociedade

Se o primeiro Zootopia já nos mostrava como preconceitos podem estar escondidos nos detalhes do cotidiano, Zootopia 2 amplia esse olhar. A cidade dos animais aborda temas como história, pertencimento e exclusão social quando introduz a narrativa sobre uma parte esquecida da comunidade, os répteis, que foram deixados de lado no desenvolvimento da metrópole. Essa história paralela é uma metáfora para as injustiças históricas e a importância de reescrever narrativas que deixaram muitos de fora. 

Mais do que falar de “coexistência”, o filme nos pergunta: Estamos dispostos a compreender as raízes do nosso próprio medo do diferente? E, sobretudo, a olhar para quem foi deixado para trás na história?

Preconceito, medo e empatia

As jornadas de Judy e Nick são atravessadas por julgamentos apressados, quase sempre ancorados na espécie, na tradição ou no medo do que parece ameaçador. Nada muito distante do que acontece fora da tela. O filme expõe como preconceitos se infiltram nas relações de forma silenciosa, muitas vezes travestidos de costumes, expectativas sociais ou histórias prontas que repetimos sem perceber.

Na animação, o preconceito não surge como vilania explícita, mas como hábito. E é justamente aí que mora seu perigo: ele se manifesta quando alguém é reduzido a um rótulo antes mesmo de ser escutado. Ao colocar seus personagens diante dessas tensões, o filme revela que o medo do outro costuma nascer menos da diferença em si e mais da recusa em conhecê-la.

Imagem: Divulgação do Filme, Disney/Pixar

Quando a narrativa aposta na construção gradual da confiança, ela propõe algo maior do que entretenimento: uma ética da convivência. Não uma ética abstrata, mas cotidiana, feita de escolhas pequenas e decisivas, ouvir antes de reagir, questionar o próprio olhar, escolher ajudar quando seria mais fácil se afastar. A empatia, aqui, não é discurso bonito; é prática.

Essa ideia ecoa um pensamento profundamente popular e, justamente por isso, poderoso. Em O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, lemos que “é o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. Em outras palavras, o vínculo nasce do cuidado, da atenção e da disposição de se aproximar, nunca da pressa em julgar. Zootopia 2 atualiza essa lição ao mostrar que só há convivência possível quando se aceita o risco do encontro.

Assim, o filme nos lembra que empatia não é concordar com tudo, nem eliminar conflitos, mas sustentar relações mesmo quando o medo tenta falar mais alto. Uma lição antiga, quase óbvia, e exatamente por isso tão necessária em um mundo que insiste em simplificar o outro antes de compreendê-lo.

Imagem: Divulgação do Filme, Disney/Pixar

O que Zootopia nos ensina sobre nós mesmos

No fim das contas, Zootopia 2 confirma aquilo que perguntamos no início: um desenho animado pode, sim, dizer muito sobre nós mesmos. Não porque ofereça respostas fáceis, mas porque nos devolve perguntas essenciais, embaladas em cores, humor e delicadeza. Como todo bom espelho, o filme não distorce, amplia. Mostra o que somos quando escolhemos ouvir, quando erramos, quando julgamos rápido demais e quando, apesar disso, seguimos tentando conviver.

A cidade ideal que o filme sugere não nasce pronta nem é isenta de conflitos. Ela se constrói no gesto cotidiano, na conversa possível, na decisão consciente de enfrentar os próprios preconceitos em vez de projetá-los no outro. É uma ética do encontro, simples e exigente, que começa dentro de cada um e se espalha pelas relações que cultivamos.

Em um tempo em que as diferenças se tornam cada vez mais visíveis e, muitas vezes, mais tensionadas, Zootopia 2 nos convida a desacelerar o julgamento e aprofundar o olhar. Uma conversa que merece atravessar as salas de aula, o recreio, a mesa de jantar e, claro, este espaço do Cinema Comentado: com atenção, escuta e a coragem de deixar o coração participar da reflexão.