Onde tudo começou: a história do Barulho e o protagonismo estudantil que se transformou em tradição
Em algum momento do início dos anos 2000, era comum encontrar alunos de diferentes idades caminhando pelos corredores da Escola Monteiro com um violão nas mãos. Os recreios frequentemente se transformavam em rodas de música, colegas se reuniam para tocar e cantar, e algumas bandas começavam a surgir naturalmente entre os estudantes.
O problema era que aqueles jovens músicos tinham poucos espaços para se apresentar.
Muitos ainda eram menores de idade e não tinham acesso aos locais que promoviam música ao vivo. Faltavam equipamentos, palcos e oportunidades. O que existia, porém, era vontade. E foi justamente dessa vontade compartilhada que nasceu o Barulho, um evento idealizado pelos próprios estudantes e que, mais de duas décadas depois, continua sendo uma das tradições mais marcantes da história da Monteiro.
“Eu penso que os idealizadores do Barulho eram os alunos que mais precisavam daquele momento”, recorda Pedro, uma das mentes idealizadoras do festival, ainda quando era aluno. “Por isso, agarrei-me tanto à ideia e disse a mim mesmo: isso vai ter que acontecer de qualquer jeito.”
Ao lado de Gabriel Abaurre e Igor, conhecido entre os colegas como “Jesus”, Pedro ajudou a transformar em realidade uma ideia que começava a ganhar forma: criar um espaço para que os estudantes apresentassem suas músicas e compartilhassem suas produções artísticas com toda a comunidade escolar.
Uma escola que já respirava arte
O surgimento do Barulho não aconteceu por acaso.
Naquela época, a Escola Monteiro já cultivava uma relação muito próxima com a arte e a cultura. Eventos pedagógicos, apresentações teatrais e atividades culturais faziam parte da rotina escolar. Além disso, a escola recebia apresentações de bandas capixabas, transformando a quadra em um grande palco.
Pedro lembra que assistir a esses eventos ajudou os estudantes a perceber que também poderiam ocupar aquele espaço.
“A Monteiro sempre teve um engajamento forte com a música e a arte. A gente via a quadra se transformar em palco, com equipamentos, iluminação e bandas se apresentando. Foi quando percebemos que era possível fazer algo parecido para os alunos.”
Gabriel Abaurre guarda uma lembrança semelhante. Para ele, a ideia nasceu de forma simples, durante conversas entre colegas.
“A gente não tinha muita noção de como queria tudo ainda. Só sabíamos que queríamos tocar. Os outros detalhes foram aparecendo à medida que o tempo passava e as coisas tomavam forma.”
Nesse sentido, o Barulho surgiu de encontros, afinidades e interesses compartilhados. As bandas já existiam antes do evento. Os ensaios aconteciam. Os instrumentos já circulavam pela escola. Faltava apenas um espaço capaz de reunir tudo isso.
Do sonho à primeira edição
Transformar a ideia em realidade exigiu um grande trabalho coletivo. Foi preciso definir uma data, mobilizar os estudantes, reunir equipamentos e garantir uma estrutura mínima para as apresentações. Como o evento nasceu da iniciativa e da colaboração dos próprios alunos, nada pareceu mais adequado do que realizá-lo no Dia do Estudante.
Edição do Barulho de 2006 e 2008 – Música, criatividade e protagonismo fazem parte da história do Barulho
“O que faltasse, a gente dava um jeito”, lembra Pedro.
A primeira edição, realizada em 2004, aconteceu de maneira bastante artesanal. Os próprios alunos organizaram boa parte do evento, disponibilizaram instrumentos e ajudaram a montar a estrutura necessária.
“Como eu já tinha uma banda relativamente ativa, levei tudo o que pude quanto a equipamentos e fiz o possível para ajudar as outras bandas também”, conta Gabriel. “Foi tudo feito e arranjado por nós.”
A divulgação também seguia outra lógica. Em uma época anterior às redes sociais, a notícia circulava pelos corredores, pelas salas de aula e pelas conversas entre amigos.
“Eu ia nas turmas avisar: ‘O Barulho está chegando! Quem tem banda e quer tocar pode falar comigo’”, recorda Pedro.
Edição do Barulho de 2004 e 2006 – Entre ensaios e apresentações, talentos ganharam espaço e novas histórias começaram.
O resultado surpreendeu.
Sem campanhas elaboradas ou grandes estratégias de divulgação, o público compareceu em peso. Muitos estudantes queriam assistir aos amigos se apresentando. Outros estavam curiosos para descobrir quem eram aqueles colegas que, fora da rotina das aulas, também eram músicos, compositores e intérpretes.
“O engajamento foi muito alto”, lembra Pedro. “As pessoas queriam prestigiar os amigos.”
O sucesso da primeira edição abriu caminho para que o evento crescesse nos anos seguintes, recebendo mais participantes e ganhando uma estrutura cada vez mais consolidada.
Professores que acreditaram na ideia
Se o Barulho nasceu das mãos dos estudantes, também encontrou apoio em educadores que acreditaram no potencial da iniciativa. O ex-professor de Artes da Monteiro, Genildo Ronchi, foi um dos primeiros a abraçar a proposta. Ao lado do professor Márcio Vaccari, ajudou os alunos a transformar aquele desejo em realidade.
“A Escola Monteiro sempre permitiu e incentivou que os alunos trouxessem, de suas realidades, manifestações de habilidades e interesses das mais diversas naturezas”, afirma Genildo.
Segundo ele, existia uma compreensão coletiva de que a escola deveria ser um espaço onde os estudantes pudessem experimentar, criar e compartilhar aquilo que os mobilizava.
“Os professores abraçavam as ideias dos estudantes como se o desejo do universo escolar fosse um instinto natural.”
Esse apoio se manifestava de forma muito prática. As aulas de Artes, por exemplo, tornaram-se espaço para a criação dos cartazes do evento, tradição que permanece até hoje. Novas ideias surgiam constantemente e circulavam entre estudantes, professores e coordenação, fortalecendo a construção coletiva do Barulho.
Pedro lembra que muitas sugestões chegavam por meio de Genildo.
“Ele vinha conversar comigo e dizia: ‘Olha, um aluno teve uma ideia interessante para o Barulho’. As ideias chegavam muito livres e espontâneas.”
A experiência de organizar o festival permitia que os estudantes participassem de processos de planejamento, produção cultural, comunicação e trabalho em equipe.
Muito além da música
Embora tenha surgido como um festival musical, o Barulho rapidamente se tornou um espaço de expressão mais amplo. Ali, os estudantes encontravam a possibilidade de mostrar talentos, construir projetos coletivos e experimentar formas de protagonismo que dificilmente caberiam apenas dentro da sala de aula.
Para Pedro, o evento representava algo próximo de um grande festival.
“Era o nosso Rock in Rio”, brinca.
Mas o significado ia além do palco. O Barulho também revelava aspectos pouco conhecidos dos próprios estudantes.
“Não era todo mundo que tocava um instrumento. Então existia esse momento de surpresa: ‘Caramba, a gente estuda com essas pessoas todos os dias e não sabia que elas tocavam assim’.”
Outra característica marcante era a preocupação em garantir espaço para todos. Enquanto muitos festivais selecionavam apenas alguns participantes, a lógica do Barulho caminhava em outra direção.
“Se existiam dez bandas e o tempo era curto, a gente diminuía o tempo de apresentação para que todo mundo pudesse tocar”, lembra Pedro.
A escolha evidencia uma característica que atravessa toda a história do evento: a valorização da participação coletiva acima da competição.
Histórias que permanecem
Ao longo dos anos, o Barulho produziu memórias que continuam vivas entre aqueles que participaram de suas primeiras edições. Pedro, por exemplo, guarda com carinho a lembrança de uma música composta ao lado do amigo Bernardo Bressan em homenagem ao ex-professor de Matemática Rony Cláudio.
A canção, criada em tom bem-humorado, acabou sendo cantada por estudantes de diferentes turmas.
“Eu lembro da escola inteira cantando.”
Gabriel recorda outro momento marcante: seu irmão mais novo, então estudante da Monteiro e baterista de uma das bandas, sendo carregado pelos amigos após uma apresentação. Genildo, por sua vez, guarda lembranças de diferentes momentos. Ele destaca os laços construídos entre os estudantes e as amizades que nasceram nos bastidores, entre ensaios, apresentações e encontros proporcionados pelo evento.
“As histórias mais bonitas são as dos casamentos entre ex-alunos que começaram ali, no compasso das notas e dos tons”, conta.
O Barulho também criou memórias inesquecíveis.
Um legado que continua
Passadas mais de duas décadas, o Barulho permanece como parte importante da identidade da Escola Monteiro. Sua continuidade ajuda a contar uma história que atravessa a música, mas que foi escrita por meio dela: a história de estudantes que encontraram espaço para criar, de professores que acreditaram em suas ideias e de uma comunidade escolar disposta a transformar projetos em realidade.
Hoje, novos alunos ocupam o palco, novas bandas surgem e novas memórias são construídas. Ainda assim, algo permanece igual ao que existia no início dos anos 2000: a possibilidade de transformar interesses, talentos e sonhos em experiências compartilhadas. Para Élio Serrano, coordenador do Ensino Médio, segmento que reúne o público do evento, o Barulho representa a força do protagonismo estudantil e da escuta das novas gerações.
“Quando a escola acolhe as ideias dos estudantes e oferece condições para que elas se tornem realidade, reconhece que eles também são responsáveis pela construção do ambiente escolar. O Barulho é um exemplo muito significativo desse protagonismo, pois nasceu de uma iniciativa dos próprios alunos e continua se renovando a partir dos interesses, dos talentos e da participação de cada geração”, destaca Élio.
Para Pedro, que seguiu carreira profissional na música, o significado do Barulho continua sendo resumido por uma frase simples:
“Onde tudo começou.”
Talvez seja justamente por isso que o nome do evento continue fazendo sentido tantos anos depois.
Porque o Barulho nunca foi apenas sobre som. Foi sobre estudantes descobrindo que suas ideias podiam ganhar forma. Sobre amizades construídas em torno de interesses comuns. Sobre pessoas encontrando espaço para se expressar, experimentar e criar.
Mais de vinte anos depois, os instrumentos mudaram, novas gerações chegaram e o festival se transformou muitas vezes. Mas aquilo que deu origem ao Barulho continua presente. E toda vez que o palco volta a ser ocupado por novos estudantes, aquele primeiro desejo de simplesmente tocar e ser ouvido encontra novamente um lugar para ecoar.
Texto: Deivid D’Paula