Rebecca de 1940, dirigido por Alfred Hitchcock. Foto: Reprodução/Selznick International Pictures

 

De Daphne Du Maurier, o romance “Rebecca”, publicado em 1938, inspirou Alfred Hitchcock a desenvolver sua própria versão cinematográfica da obra. Lançado em 1940, o filme do renomado diretor de suspense foi a primeira adaptação para as telas, precedendo a série televisiva de 1997 e o remake da Netflix, acrescentado em 2020 à plataforma de streaming.

Lily James protagoniza o remake de 2020. Foto: Reprodução/Netflix/Kerry Brown

A narrativa traz uma jovem órfã, humilde e trabalhadora, que, ao casar-se com Maximilian de Winter, um homem rico, vai morar com ele na misteriosa e isolada mansão Manderley. Com o passar do tempo, a protagonista se mostra cada vez mais atormentada pelas memórias de Rebecca, a falecida primeira esposa, constantemente lembrada pela governanta, a Sra. Danvers.

Dentro desse contexto, a nova Sra. de Winter (cujo primeiro nome não é mencionado em momento algum), passa a duvidar da própria sanidade mental, sob forte influência do comportamento dos outros personagens – inclusive pela omissão e atmosfera misteriosa de seu próprio marido. A incógnita em torno da figura de Rebecca alimenta o suspense psicológico e, ao ser constantemente comparada com a primeira esposa, a protagonista passa a demonstrar-se cada vez mais insegura, desconfiada, com medo e autoestima baixa.

Contornando possíveis spoilers, ambos os longas exibem uma Sra. de Winter psicologicamente refém da situação, a qual exerce significativa interferência em suas escolhas e atitudes, mesmo após grandes revelações.

“Rebecca” de 1940 versus “Rebecca” de 2020

A versão de Ben Wheatley, produzida pela Netflix, é a cores e tem elementos audiovisuais nitidamente característicos do terror, na tentativa de cativar o público. Demonstra um roteiro pouco aprofundado e prefere utilizar-se de apelo sexual para potencializar a romantização do relacionamento, não sendo indicado para menores de 14 anos.

Em contrapartida, o longa-metragem de Hitchcock apresenta os singulares traços estilísticos do diretor, sem nos deixar dúvidas sobre o gênero do filme. Essa versão não se reduz ao suspense, em si, e nem a aspectos relacionais entre a protagonista e os outros personagens: contém muitos outros elementos pertinentes a serem analisados. A adaptação de 1940 nos envolve do início ao fim, deixando claros os motivos pelos quais levou o Oscar de Melhor Filme, um ano depois.

Lembranças e segredos assombram a nova Sra. de Winter. Foto: Reprodução/ Selznick International Pictures

Apesar das diferenças, considero válido assistir a ambos os longas, não apenas para observar as diferenças entre o audiovisual de dois períodos distintos, ou pelo rico contato com o cinema clássico, mas devido aos importantes debates morais e éticos suscitados pela narrativa.

A história dá muito o que pensar

Com um olhar mais sensível e atento, é possível analisar, por exemplo, o machismo, bastante naturalizado na época em questão. Sob esse viés, podemos observar, nos dois filmes, traços do que chamamos hoje de “relacionamentos tóxicos” e “abusivos” – não apenas entre o casal. Uma análise como essa nos leva a questionar, ao final da história, se a Sra. de Winter tem um final feliz em seu casamento.

Nessa perspectiva relacional, as sutilezas da história promovem um alerta quanto à preservação da saúde mental, fazendo-nos refletir sobre o que podemos aceitar e normalizar em nossas relações, mesmo que a intenção de Du Maurier não tenha sido essa quando redigiu a obra. Atravessando décadas, “Rebecca, A Mulher Inesquecível” dá muito o que pensar ao mesmo tempo que entretém. Vale a pena conhecer este thriller psicológico, marcante como a personagem de seu título.

Clique aqui e assista ao filme de 1940, dirigido por Hitchcock (ative as legendas).

Clique aqui e confira o trailer da versão da Netflix, lançada em 2020.

Talita Vieira.

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