Saoirse Ronan interpreta Lady Bird. Foto: Reprodução/Universal Pictures Brasil

 

As plataformas de streaming estão recheadas de filmes cujo único objetivo é proporcionar entretenimento vazio aos telespectadores. Entre as produções que foram acrescentadas recentemente ao catálogo da Netflix, encontra-se “Lady Bird – A Hora de Voar”, cuja estética indie (ou “alternativa”), somada ao curioso título, despertou minha atenção.

Lançado em 2017 e dirigido por Greta Gerwig, o filme retrata o amadurecimento de uma adolescente estadunidense, Christine “Lady Bird” McPherson, nascida e criada em Sacramento, Califórnia. Contextualizada no início dos anos 2000, a narrativa atém-se não só aos dilemas internos – mais intensos na idade da protagonista, em seu último ano no colégio católico –, mas à complicada relação entre ela e sua mãe.

A relação entre a protagonista e mãe é destaque na obra. Foto: Reprodução/Universal Pictures Brasil

Recheada de alguns desabafos repentinos, feitos nos momentos mais inesperados possíveis, algumas alfinetadas e críticas, a relação de Lady Bird com a figura materna representa um fundamental elemento para o amadurecimento e desenvolvimento da personagem. Em alguns momentos, ela age com mesquinhez, infantilidade e drama, e, em outros, aparenta ser compreensiva, madura e sensata, inclusive, defendendo a mãe de críticas e do desdém alheio.

As relações amorosas da protagonista são outro fator importante na obra de Gerwig, que a distanciam dos romances clichês da maioria dos filmes destinados ao público adolescente. Também servem para evidenciar a construção da personagem Lady Bird, que age e reage aos conflitos e experiências afetivas de maneira natural e verossímil, como uma adolescente comum e real, fora das telas.

Os medos, desejos e confusões mentais da protagonista são, de modo geral, mostrados com naturalidade, e até certa leveza, no longa. As cenas de destaque não são carregadas de dramatizações exageradas ou acompanhadas obrigatoriamente por trilhas sonoras, como encontramos em muitos filmes teen. A sensação de sufocamento pela qual Lady Bird passa em meio aos acontecimentos de sua vida também é experimentada pelo público que, provavelmente, identifica-se (e muito) com a personagem, exatamente pela forma mais “crua” como ela é apresentada na obra cinematográfica.

O filme traz diálogos inteligentes e semelhantes aos da vida real. Foto: Reprodução/Universal Pictures Brasil

O filme marca a trajetória de Gerwig como estreante na direção. Com brilhantismo, passa para “Lady Bird – A Hora de Voar” a graça e o peso simultaneamente vivenciados pelas mulheres, na faixa dos 17-18 anos, sem errar no olhar sensível ou deixar-se levar pelas técnicas já empregadas pelos diretores homens em filmes do gênero. Recomendado para maiores de 14 anos, o filme quase autobiográfico garantiu à Gerwig algumas indicações ao Oscar de 2018, inclusive, na categoria Melhor Diretor/a, na qual foi a quinta mulher a disputar este prêmio, até então.

Com diálogos inteligentíssimos, dotados de sutilezas como os da vida real, o longa faz-nos sentir como Christine “Lady Bird” McPherson: a hora de voar é inevitável e não é (e nem deve ser) romantizada ou glamourizada. Representando um grande desejo da maioria dos adolescentes – nos EUA ou fora dele –, “voar do ninho” pode ser assustador, mas não é impossível. Muitas vezes, é doloroso, mas necessário. Em Lady Bird, esse processo de desenvolvimento e amadurecimento é sincero, tornando-a uma obra autêntica e válida de ser assistida.

Clique aqui para assistir ao trailer de Lady Bird – A Hora de Voar.

Talita Vieira.

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